Nº 30 nov/dez 2014

Malas Prontas

Aventura Pantaneira

“Ora bolas, não me amole. O que eu quero é sossego”, clamava Tim Maia. E porque não incluir na lista também sombra e água fresca. Esta seria a descrição perfeita do edén de quem vive no século 21, sob o domínio da poluição, do trânsito, da violência e de outros tantos incômodos do cotidiano das grandes cidades brasileiras. Vontade de escapar uns dias nesse verão e perder de vista qualquer resquício de agitação? Se esse é o lema, e o desejo não é por praias – muito menos por aquelas onde há disputa por cada centímetro na areia –, faça chuva ou faça sol, o Pantanal é ótima pedida.

O Pantanal se divide entre o Mato Grosso e o Mato Grosso do Sul, no Brasil, e, do outro lado da fronteira, alcança o Paraguai e a Bolívia. Num cenário verde de doer a vista, foram catalogadas 656 espécies de aves, 122 de mamíferos, 93 de répteis e 263 de peixes, garantindo ao lugar o título de reserva da biosfera, atribuído pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), em 2000.

A formação do santuário ecológico se deve à sua localização. Dividido em 11 subregiões, o Pantanal é composto por cinco tipos de biomas – cerrado, Amazônia, mata atlântica, chaco e bosque seco chiquitano – e ainda é onde se dá o encontro entre as duas maiores bacias hidrográficas da América do Sul – a Amazônica e a do Prata –, o que possibilita o intercâmbio de espécies da fauna e da flora entre as duas.

Esse paraíso ainda é pouco explorado por brasileiros. Apesar do crescimento recente da demanda por pacotes no país, são os estrangeiros os principais visitantes, segundo o diretor da agência Pantanal Viagens e Turismo, Milton Prado. “Três em cada quatro turistas são de fora. O brasileiro não acredita muito no que pode encontrar aqui”, afirma. Mas, aos poucos, o cenário tem mudado, especialmente por causa da valorização do real frente ao dólar.

Considerada a maior área úmida do mundo, com ambientes de inundação fluvial generalizada e prolongada, o Pantanal é um lugar apropriado para a alta produção biológica, densidade e diversidade de fauna, segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Durante o período de chuvas, que se estende de dezembro a março, com a cheia dos rios, as espécies se espalham pelas baías formadas nas depressões, dando ao visitante a chance de se maravilhar com a multiplicação de tonalidades das águas, algo impossível de se traduzir.

Se o prazer está na calmaria, o período do veraneio é o ideal. De novembro a fevereiro, a pesca é proibida por causa da piracema e, com isso, praticamente não há aqueles que representam dois terços dos 700 mil turistas que visitam o Pantanal por ano. Os mais de 150 mil quilômetros quadrados são a verdadeira Disneylândia do ecoturismo. Mas, dependendo do tempo disponível, é preciso escolher quais locais conhecer e traçar uma rota pelos dois estados de tamanhos continentais.

Um trekking pelos parques permite contemplar a exuberância da flora e das cavernas. No Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, caminhar por mais de cinco horas em meio às belezas naturais e se refrescar numa das seis cachoeiras do lugar é sinônimo de purificação. A gruta Casa de Pedra é um dos atrativos. Dizem que a Coluna Prestes se refugiou no local durante a cruzada Brasil adentro na década de 1920.

O parque fica no município de Chapadas dos Guimarães, distante 65 quilômetros de Cuiabá, pela rodovia Emanuel Pinheiro (MT-251). De colonização portuguesa, a pequenina cidade é parada para os turistas que desejam conhecer o parque. Mas, antes de trilhar o circuito das cachoeiras, é preciso agendamento prévio com agências ou guias cadastrados. A entrada na área é gratuita.

Safári fotográfico

Outra porta de entrada para o Pantanal é pela cidade de Miranda, no Mato Grosso do Sul. Como num safári africano, a visita é feita num jipe off-road 4x4, apelidado de “jaguaretê” e adaptado para o percurso de 117 quilômetros da Estrada Parque Pantanal, construída por Marechal Cândido Rondon em meados do século 19. A cada parada, uma chance de se tirar as mais inusitadas, e inesquecíveis, fotografias da viagem. A aventura custa R$ 115 por pessoa, mas o preço é compensado por cada imagem.   

Por ali, estão também as águas cristalinas de Bonito (MS), que encantam quem as vê pela primeira, segunda, terceira, quarta vez... A Gruta do Lago Azul é exemplo da beleza e o porquê do nome da cidade. Mas o azul não é a única cor. No Rio Baía Bonita, mais das maravilhas do local numa multiplicação de cores. É possível flutuar rodeado por peixes, como se estivesse num imenso aquário a céu aberto, e o azul se mistura com o verde, o amarelo, o rosa e suas inúmeras tonalidades.

E é na profundidade das águas que está parte do encanto. Como se escondesse do homem para se manter intacta, a natureza reserva atrativos subterrâneos em lagos profundos dentro de grutas. Entretanto, é preciso experiência na prática do espeleomergulho para  desbravar as maravilhas da Gruta do Mimoso e da Lagoa Misteriosa – ponto mais profundo alcançado por um mergulhador no Brasil.

Os apaixonados por aventura, mais do que pela própria natureza, têm parada obrigatória no fascinante passeio noturno que permite acompanhar de perto o comportamento dos jacarés. De dentro de um barco, é possível avistar milhares de pontos amarelos flutuando sobre as águas. São os olhos dos animais refletidos pelas luzes das lanternas que passeiam pelo rio. Mais algumas horas no rio e o visitante se depara com a exuberância do nascer do sol.  Essa big aventura pode ser vivida a partir de distintas cidades, a partir dos dois estados brasileiros que abrigam o Pantanal.

Riqueza natural

O bioma é formado por 4,7 mil espécies de animais e plantas;

Existem mais aves na região do que na América do Norte ( 656 contra 500)  e mais peixes de água doce do que na Europa (263 contra 200);

A área do Pantanal supera a soma de quatro países europeus (Bélgica, Suíça, Portugal e Holanda);

A sucuri amarela, com 4,5 metros de comprimento, é a maior cobra do Pantanal. Ela se alimenta de peixes, aves e pequenos mamíferos;

A onça-pintada encontrada no Pantanal pesa até 150 quilos, alimentando-se de 85 espécies de animais da região.

No Pantanal não se
Pode passar régua
Sobre muito quando chove.
Régua é existidura de limites e o Pantanal não tem limites.
Aqui, bonito é desnecessário,
Beleza e glória das coisas o olho que põe.
(Manoel de Barros)

Foto: SXC


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