Nº 30 nov/dez 2014

Comportamento

Orgulho Negro

Em Belo Horizonte,, o soul empolga e reina absoluto em um baile
com muito estilo


Sapato bicolor lustrado e terno bem alinhado. A atenção aos detalhes torna impecável o figurino de Antônio Carlos dos Santos, o Kaká, de 48 anos. A famosa cabeleira black power de outros tempos deu lugar à boina, emprestando mais elegância ao traje. A batida soul é o ritmo que embala os passos de dança deste porteiro no Baile da Saudade, no Vilarinho, região da periferia de Belo Horizonte (MG).

Realizado religiosamente no segundo sábado do mês, o evento contribui para que a black music resista ao tempo, mantendo viva uma cultura que na década de 1970 foi sucesso absoluto no Brasil e em várias partes do mundo, em especial nos Estados Unidos. “Hoje se fala muito em resgate do soul . Mas, para mim, ele sempre esteve vivo. Montei meu próprio som para manter o movimento soul por aqui. Passei vários anos tocando para cinco, dez pessoas”, revela Antônio Marçal dos Reis, o DJ Toninho Black, de 53 anos, criador do Baile da Saudade em 1983, época em que o ritmo perdia espaço para a música “disco”.

Quase 30 anos depois, a história é bem diferente. O baile se tornou um dos eventos mais tradicionais da black music não só em Belo Horizonte, mas no país. Rodeado por dezenas de LP’s, Toninho Black embala mais de 500 pessoas ao ritmo das músicas de Tony Tornado, Tim Maia, Gerson King Combo e outros artistas que são referência no estilo.

Entre os que batem ponto na festa, lá está Kaká. Com experiência de veterano, ele dá um show na pista e recebe o olhar admirado de quem ensaia os primeiros passos. De onde vem tanta energia? Kaká responde sorrindo: “O próprio nome já diz: música soul, música que vem da alma. Então: é ouvir o som e deixar a alma dançar”. Em quase três décadas, ele deixou de frequentar o baile somente quando quebrou a perna. “Mesmo assim, quando já estava quase bom, fui ao baile de muletas”, conta. O modo de vestir e de dançar dos fãs da black music confere, de fato, uma característica única a esses eventos. Como explica Toninho Black, o traje adequado é importante para o bom desempenho na pista. “Para dançar, você precisa de um bom sapato. Não precisa ser bicolor, mas no mínimo ter uma sola de couro para deslizar melhor. Um bom sapato requer uma roupa social, que também é mais confortável. Assim vestido, você dança bem melhor do que se estivesse com um tênis ou uma calça jeans”.

Uma peculiaridade do Movimento Soul de Belo Horizonte está exatamente na maneira de se vestir. A elegância evidencia uma forte influência do cantor e compositor norte-americano James Brown. Muitos nomes fizeram a história da soul music, mas ele é unanimidade e congrega em sua biografia todo o ideário do Movimento. Ainda que sempre às voltas com polêmicas, envolvendo drogas, brigas e frequentes prisões, construiu sua carreira a partir deste estilo musical e se transformou num grande mito de alcance mundial.

“Enquanto o nome James Brown tiver força, os sapatos bicolores, a elegância no vestir será imprescindível para os adeptos do Movimento Soul. Entretanto, a força dele transcende a dança e o vestir. Brown é o grande responsável por levantar a bandeira do orgulho negro: “Say it loud: Im black and Im proud!” (Diga bem alto: eu sou negro e me orgulho disso!), lembra Rita Ribeiro, professora do Programa de Pós-Graduação em Design da Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg) e autora de tese de doutorado sobre o Movimento Soul na capital mineira.

Cultura Black
A diversão não é o único objetivo de quem dança a black music . Trata-se de uma sagração do dançarino, quando ele revela seus talentos e se distingue socialmente. Para Rita, “o baile é a ocasião na qual os dançarinos abandonam a invisibilidade social e se transformam em personagens. Também os frequentadores deixam o anonimato cotidiano e brilham em papéis que não são os seus usuais”.

A música soul nasceu nos Estados Unidos no final da década de 1960 como um movimento de afirmação da identidade negra. “Nos anos 70, participar desses bailes era uma forma de resistir às diversas pressões sociais, à discriminação contra os negros. Hoje, os tempos são de democracia. Mas os rituais do vestir, das danças em conjunto e das performances individuais permanecem os mesmos nos bailes e constituem o grande charme”, destaca Rita.

Mix de gerações
Os bailes de música soul já não são mais frequentados apenas pelos negros. Na pista do Vilarinho, jovens brancos, de classe média ou alta, em grande parte estudantes, tentam seguir os passos de dança tão bem executados por Kaká e outros veteranos do Baile da Saudade. “Já percebi que o importante no soul é dançar, mesmo que você não saiba como. Não dá é para ficar parado”, enfatiza o cantor de música popular e erudita, Washington Oliveira, de 24 anos, um jovem entusiasta do baile.

“O renascimento do Movimento Soul , capitaneado pelos novos cantores, entre outros fatores, apresentou a soul music para os mais jovens. E é natural que eles queiram conhecer de perto os blacks da velha guarda", afirma Rita. “Isso é bom?”, questiona, e pondera: “Por um lado sim, pois valoriza o movimento. O que é preocupante é a desvirtuação do próprio baile devido ao número excessivo de frequentadores. Muitos vão só por modismo e não comungam os “Mandamentos Black ” , um código de comportamento próprio dos brothers e sisters que participam do Movimento, baseado no respeito mútuo”. Os “Mandamentos Black ” foram escritos e musicados pelo carioca Gerson King Combo, famoso nos anos 70 por sua atuação frente à black music. Ele ficou conhecido  como o James Brown brasileiro.

Para Toninho Black, no entanto, os jovens “de fora” do Movimento são sempre bem-vindos. Eles e quem mais se interessar. “É uma interação muito boa. O negro mantém a cultura do soul e o jovem estudante é quem gosta de cultura. Eles vêm pela cultura. É o velho, o jovem, o meia-idade, o branco, o negro, o loiro e até os gringos, que de vez em quando aparecem por aqui”.

Camila Freitas

Para curtir

Baile da Saudade
Rua Padre Pedro Pinto, 6.100.
Bairro Vilarinho - Belo Horizonte
Todo segundo sábado do mês, a partir das 22h.
(31) 3456 6595

Quarteirão do Soul
Rua Santa Catarina, entre a Av. Amazonas e Rua Tupis.
Centro - Belo Horizonte
Todos os sábados das 14h às 22h

Orgulho Negro

Baile da Saudade celebra, há quase 30 anos, a black music


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